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sábado, 4 de agosto de 2012

Aproveite o fim de semana e leia II: Pois me beijaram a boca e me tornei poeta

Em 1976, Elis Regina cantava as palavras de Belchior sobre a transição da juventude para a vida adulta. O tom de Como Nossos Pais era melancólico e enérgico. Lá pelas tantas, aparece a frase: “Você diz que depois deles não apareceu mais ninguém”.

Belchior e Elis se referem aos ídolos musicais que temos nas primeiras décadas de vida e que não são substituídos. Isso acontece com todo mundo. A adolescência e os primeiros anos da juventude são fortemente musicais. Garotos e garotas de 16 anos podem passar uma tarde inteira de fone de ouvido e olhos fechados, “curtindo”. Passam-se os anos e muitos deles continuam vidrados nas canções que embalaram suas tardes sonhadoras e concluem que “não apareceu mais ninguém”. A referência musical continua vindo lá de trás. Diria Elis Regina:


“É você que ama o passado
E que não vê que o novo sempre vem...”

O novo nem sempre consegue tomar conta de nossa cabeça. Uma das razões é porque amamos, sim, partes do nosso passado, especialmente a trilha sonora. Quanto mais distante no tempo, mais significativa aquela canção se torna para nós; passamos a gostar dela de uma forma talvez até mais intensa do que gostávamos no passado. A velha canção se reveste de um valor especial, emotivo, sensorial.


Outra razão é que a música, tanto a popular quanto a erudita, reflete o mundo à sua volta. Isso dá a ela uma beleza intrínseca, que só é totalmente compreendida pelos contemporâneos, que veem suas referências refletidas, mesmo que de forma velada. Para todos os demais, ainda existe a outra beleza, extrínseca, que qualquer um pode captar.

Às vezes o amor ao passado causa uma rejeição ao presente (“depois deles não apareceu mais ninguém”). Outros mantêm a mente aberta às novidades e até apreciam algumas delas. Mas, sejamos francos, é difícil mesmo para eles que o novo conquiste o mesmo espaço. O que dirá substituir os velhos amores.

Não quero que pensem que eu amo o passado, mas o fato é que eu... realmente amo algumas coisas vindas do passado. Amo a Elis. Amo o Cartola e me diga se dá para não amar alguém que fez uma canção popular com versos deste calibre:
“Ouça-me bem, amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho
Vai reduzir as ilusões a pó”

Amo o João Nogueira, outro poeta requintado que escreveu Espelho, falando do pai, que também era sambista:
“Ê vida voa, vai no tempo, vai
Ah, mas que saudade
Mas eu sei que lá no céu o velho tem vaidade
E orgulho de seu filho ser igual seu pai
Pois me beijaram a boca e me tornei poeta
Mas tão habituado com o adverso
Eu temo se um dia me machuca o verso
E o meu medo maior é o espelho se quebrar”

Nada contra o presente e tomara que o futuro traga muita novidade. É que o tempo age como um filtro e esquecemos as bobagens que ouvimos e só lembramos os tesouros. Me recordo que, quando eu era criança, ouvia-se no rádio que “aonde a vaca vai, o boi vai atrás”. O passado não era perfeito, amigos. Felizmente esqueci a maior parte dele.

Coluna da Marleth Silva - publicada na Gazeta do Povo 

Aproveite o fim de semana e leia I: Abaixo a cornetagem

Ele passa três anos, 11 meses e três semanas pensando só em futebol. Mas chegam os Jogos Olímpicos, dos quais praticamente não há como escapar, e ele fica sabendo não apenas que existem outros esportes, mas também que há brasileiros que são campeões mundiais, líderes dos rankings de sua modalidade ou, pelo menos, figuram entre os melhores. Então, ele passa a acreditar que é obrigação desses atletas trazer medalhas para casa – muitas medalhas. Quando falham, ele os rotula como fracassados. Ele é o corneta olímpico, aquela pessoa que, até o meio de julho, só sabia a escalação do seu time, mas de repente se concedeu o direito de pontificar sobre tiro com arco e badminton.

Cornetas olímpicos são identificáveis por expressões como “o judoca amarelou” ou “o nadador foi fazer turismo em Londres”. Não interessa, por exemplo, que o judô seja um esporte imprevisível em que um segundo de distração faça um favorito perder para um azarão, coisa que temos visto com frequência. Ou que o nadador tenha chegado em último não na eliminatória, mas na semifinal ou na final, ficando entre os oito (ou 16) melhores do mundo. Ou que o adversário tenha simplesmente sido melhor. 

A única informação que o corneta olímpico processa é “perdeu na decisão do bronze” ou “último lugar”. Quem acha que só deviam ir aos Jogos Olímpicos quem tivesse reais chances de medalha ignora o efeito que o simples fato de competir contra os melhores tem no atleta, especialmente o que está começando.

O pior do corneta olímpico é que as mídias sociais lhe deram a possibilidade de cornetar o atleta sem intermediários. Em Pequim, quando a moda era o Orkut, era difícil chegar diretamente ao competidor porque as críticas ocorriam mais nas comunidades. Agora, o corneta acha as contas de Twitter ou Facebook dos atletas e os chamam, em seus murais, de “amarelões” – ou coisa pior, como o que aconteceu com a Rafaela Silva. Tenho certeza de que aquilo foi coisa de um corneta olímpico.

Não quero dizer que atletas estão imunes a críticas. Todo mundo pode ter reservas ao desempenho desse ou daquele brasileiro em Londres. Assim como não é preciso ser especialista ou praticante da modalidade para dar palpite. E amareladas acontecem, sim, mas chamar qualquer derrota de “amarelada” é injusto não apenas com o atleta brasileiro, mas com o vencedor também. O problema do corneta é a crítica infundada, quase sempre com agressividade. Gente assim atrapalha o esporte olímpico brasileiro. Ainda bem que no dia 12 o corneta olímpico desaparecerá; o problema é que em 2016 ele estará de volta.

Artigo de Marcio Antonio Campos, editor de Opinião  no jornal Gazeta do Povo

domingo, 24 de junho de 2012

Aproveite o fim de semana e leia I: A vida passa a valer um pouco mais

A proteção da vida deve estar acima de tudo, inclusive da necessidade e da fome (principalmente) de lucro das empresas. No blá-blá-blá, ninguém discorda da óbvia afirmação. Porém, na vida real do sr. Furtado, o Consumidor, a história costuma ser outra. Muitos hospitais privados, por exemplo, já deixaram pessoas morrerem porque elas não tinham dinheiro para pagar pelo atendimento hospitalar em casos emergenciais (vítimas de acidente graves, tiros, enfartes, etc).

Enquanto as vítimas da omissão de atendimento emergencial, em sua maioria, eram os desvalidos, governantes e legisladores fazia vistas grossas para o problema. E só quando, tristemente, a tragédia (anunciada) da falta de socorro por falta de pagamento (ou de garantia prévia) tirou a vida de um alto funcionário da República, as autoridades e o Congresso Nacional, às pressas, aprovaram a Lei Federal 12.653, de 28 de maio de 2012.

Lei que tornou crime a exigência de cheque-caução ou a assinatura de qualquer outro documento, como condição prévia para atender o cidadão que precisa de atendimento médico e hospitalar em caso de emergência ou situações em que a omissão de socorro pode tirar a vida ou causar lesões graves.

A regra agora é: médicos e dirigentes dos hospitais privados não podem negar o atendimento, e nem mesmo a famosa e fria burocracia do “preenchimento prévio de formulários administrativos”, pode atrasar ou impedir o socorro a quem está entre a vida e morte, como se diz.

O médico que está à frente do atendimento de emergência e os seus superiores hierárquicos diretos estão “na linha de tiro” da lei, e podem inclusive ser denunciados à polícia no momento da negativa de atendimento emergencial (risco iminente de morte), tanto pelo consumidor como por um acompanhante deste. Já sei de diretor de hospital pequeno que está sem dormir – e com razão.

A lei se aplica a quem não tem plano de saúde – ou à pessoa que tem o convênio médico, mas a operadora de saúde negou a cobertura na hora da emergência. Nos dois casos, médicos e dirigentes do hospital privado não podem negar o socorro ou condicioná-lo à burocracia ou à exigência de assinatura de documentos prévios, sob pena de responderem por crime, cuja pena chega a um ano de detenção, podendo ser triplicada, caso a omissão de atendimento cause a morte do paciente.

A pena pode até ser considerada leve, uma vez que está em jogo a vida do doente. Mas de todo modo, o fato de a omissão caracterizar crime, e motivar a presença da polícia, com prisão em flagrante, poderá intimidar os relapsos e garantir o atendimento.

É bom saber que o hospital particular cobrará a conta posteriormente, como é normal a todo prestador de serviço privado. Os políticos só cuidaram de fazer propaganda da lei, e não esclareceram esse ponto.

Ao que parece, não estamos falando de um novo serviço “gratuito”, prestado por empresa privada (a conta virá), o que está proibido é pôr o enfermo “contra a parede” para assinar documentos ou cheque na hora do desespero.

Mais: a negativa de atendimento, além de ser crime, gera o dever de pagar altas indenizações por dano moral à vítima da omissão de socorro ou sua família.

Logo, mesmo com risco de ter de visitar a delegacia, poderá não ser fácil o fiel cumprimento da lei pelos hospitais, uma vez que o governo, desavergonhadamente omisso com a saúde pública, atirou o ônus da lei somente sobre os ombros dos hospitais privados – sabendo que até mesmo a transferência de doentes para hospitais públicos, após os primeiros socorros, não é tarefa fácil.

Mas governo e hospitais que se entendam. O que o sr. Furtado, o Consumidor, não aceita é a criminosa omissão de socorro.

*com informações publcadas no blog Advogado de Defesa

domingo, 29 de abril de 2012

Aproveite o fim de semana e leia I

Conheça a "Memória das eleições curitibanas" (do retorno da democracia/1988 á biometria)

No último domingo de cada mês, até julho, a Gazeta do Povo publicará uma página mensal relembrando cada uma das eleições para prefeito ocorridas a partir de 1985.
O site do jornal trará ainda depoimentos de pessoas que tiveram alguma participação nessa história. 

*para ter acesso ao cederno especial publicado pelo Jornal Gazeta do Povo, clique aqui.