segunda-feira, 9 de maio de 2011

Homenagem à mãe

Mirian Leitão escreveu isso. Segue abaixo reproduzida a coluna.

Eu queria que todos a conhecessem. Mariana, minha mãe, morreu de um infarto fulminante, do qual ela sobreviveu por dois dias, talvez para se despedir dos filhos. Isso foi há muitos anos, ela morreu aos 64, super jovem. Como seu único defeito era dizer que tinha uma saúde ferro, nós não percebemos a hora em que ela precisava de se cuidar, em vez de cuidar de todos.

Mas essa não é uma mensagem triste. Sempre tive saudades dela e sempre terei. Mas ela me ensinava muito com as frases que me disse nos anos em que estivemos juntas. Outro dia eu percebi que ela me ensina até hoje com os silêncios que fez. Em certos conflitos, em que a dscussão não levaria a nada, exceto a cada lado fazer seu ponto e ferir o outro, ela fazia silêncio. Eram silêncios sábios, jamais ressentidos. Nos seus olhos de um belo azul claro eu via que ela teria muito a dizer, se quisesse, mas escolhia o silêncio. Ouço agora até os silêncios de minha mãe.

Eu gostaria de apresentá-la pra todo mundo que frequenta esse espaço. Ela nasceu no Espírito Santo, foi criada numa fazenda em Minas. Desde os oito anos, conseguia ter renda. Plantava verduras e vendia. Vendia bananas. Criava galinhas. Enquanto isso estudava. Era de uma família imensa, em que a pessoa mais forte era minha avó Norvinda, mais conhecida como Sinhá, que apesar de dona da fazenda, trabalhava junto aos trabalhadores. Quando meu tio Pedro, tenente do Exército, foi para a guerra, a família estava passando por um momento de penúria financeira. Ela, mal saída da adolescência, tinha dinheiro guardado suficiente para pagar a viagem dela e de minha avó para irem se despedir do meu tio. Ele morreu antes de embarcar. O caminhão do Exército no qual iria até o navio virou e ele morreu. Ela jamais o esqueceu. Me lembro que um dia muitos anos depois da morte, eu a vi chorando por ele e perguntei por que ela ainda chorava se ele tinha morrido há tantos anos, antes até de ela se casar. Ele me ensinou que certas pessoas são inesquecíveis. A foto dele, de uniforme, lindo, sempre esteve na parede da casa.

Ela se casou jovem antes de fazer o segundo grau. Incentivada pelo meu pai, que era educador e valorizava a educação, porque foi através dos estudos que ele deixou de ser um menino miserável em Pernambuco, ela voltou a estudar. Sou a sexta dos seus 12 filhos. Eu a vi estudando junto com minhas irmãs mais velhas. Fez o curso normal e o curso de pedagogia. Para fazer a faculdade, ela tinha que viajar 254 quilometros semanalmente na ida, e outro tanto na volta. O curso concentrava as aulas na sexta e sábado.

Não me perguntem como ela conseguia fazer tudo: cuidar de 12 filhos, estudar, trabalhar como professora primária, arrumar todas as nossas gavetas, fazer hortas no nosso quintal. Além disso plantava flores para enfeitar o jardim. Também não me perguntem sempre, mas estava sempre bonita, unhas feitas, só saia de casa bem elegante. Era cheirosa como uma flor. Passava ainda horas na máquina de costura Singer consertando as roupas dos filhos para que elas durarem mais. Pregava os botões, fazia bainhas, cerzia o que tivesse rasgado, adaptava as roupas para os menores. Separava o lixo. Reciclava o que podia, numa época em que ninguém tinha consciência de como é importante a reciclagem. Minha mãe conhecia os segredos do tempo. Dizia: vai chover, vai fazer sol. Era batata. Nunca a vi errar na meteorologia.

Acordava de madrugada, dormia tarde. Gostava de cantar baixinho hinos da igreja enquanto trabalhava. Lavava e passava como ninguém e arrumava gavetas de um jeito que até hoje não descobri o segredo. Meu pai era pastor presbiteriano além de professor. A voz dela se sobressaia quando cantava na igreja, onde ela sempre se sentava com os muitos filhos nos primeiros bancos. Era intensa, forte como rocha, nunca se queixava de nada, nunca reclamou de ter tantos filhos. Pelo contrário, quando estava grávida da décima segunda filha, no tempo em que só se sabia o sexo depois do nascimento, ela afirmava com segurança.

-Será uma menina e vai ser pianista.

Simone é pianista clássica. Tocará na Sala São Paulo no dia 25 de maio. Ela morreria de orgulho se visse.

Mesmo sendo forte era doce, muito doce. De carinhos discretos, nunca excessivos. Às vezes eu penso que ela gostaria de saber da minha vida hoje, mas como a confiança dela em mim era inabalável, ela sempre me dizia que eu teria êxito em tudo o que fizesse, fico achando que de certa forma ela já sabia da minha trajetória. Esse respaldo até hoje me protege nos tempos de insegurança.

O que eu gostaria de dizer aos que já perderam suas mães, que entendo essa dor, mas ao mesmo tempo é maravilhoso ter tido uma grande mãe. Eu tenho muita sorte, porque tive um pai maravilhoso também. Quem ainda tem mãe, hoje é o dia daquele abraço forte, ou da declaração sincera. Feliz Dia das Mães. Hoje curtirei meus filhos e netos e comemorarei a sorte de ser filha da Dona Mariana: sábia, doce, forte e intensa.

*fonte: visto no site do Lukas "Casa do Noca", e aqui neste espaço, republicado.

2 comentários:

  1. Bom dia.

    Tenho um apartamento na região central de Curitiba, este possui uma área averbada de 32m2(sendo estilo garden) e nesse espaço foi feito uma obra ampliando o apartamento para 60m2 a qual não foi averbada. Hoje quero vender esse imóvel, os possíveis compradores poderão fazer um financiamento imobiliário junto a algum banco?
    Grato pela atenção.
    Alexandre

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    1. Por força do seguro de DFI / Dano Físico do Imóvel, muitíssimo provavelmente não (99,9% de chance de não liberar o crédito), ou seja, muitíssimo provavelmente esse imóvel será considerado como não passível de ser aceito como garantia pra nenhum empréstimo bancário e nem pra consórcio. Tanto os bancos, como tmbm as administradoras de crédito de consórcio não tem liberado crédito pra imóveis em que se constata que não estão/estejam com 100% da área averbada. Ou seja, só será liberado crédito pra imóveis c/ 100% da área averbada

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